Não há dúvidas sobre a importância dos indicadores para desenvolver políticas relacionadas aos setores que envolvem o bem estar social e o desenvolvimento econômico equilibrado. No entanto, o Brasil ainda depende de investimentos para ampliar estudos de impactos das mudanças econômicas globais sobre a sociedade.
O Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) divulgou informações levantadas nos últimos 17 anos de alterações irreversíveis no país. Durante o 60º Fórum de Debates Projeto Brasil – Políticas Sociais: reavaliação e aplicabilidade de alternativas, realizado em novembro, o presidente da instituição, Marcio Pochmann, deu destaque ao aumento das atividades imateriais frente às materiais como uma das principais mudanças nesse sentido.
A renda do trabalho se dá a partir da propriedade que pode ser tanto formal (uma fábrica ou um mercado) como informal (uma banca de artesanato). "Essa propriedade informal pode ter uma posse tangível ou intangível. Tangível decorrente da atividade da agricultura e do comércio, por exemplo, e não-tangível como a posse de títulos comercializados na bolsa", explicou Pochmann.
Segundo o economista, em 2006 para cada dólar gerado no mundo a partir do esforço físico do trabalho humano, nove dólares eram gerados nas atividades de natureza imaterial (ou intangível) – em 1950 a cada dez dólares produzidos a partir da propriedade física, quatro dólares já eram gerados pelo trabalho dos setores de serviços. Hoje, no Brasil, a cada dez dólares trocados no mercado, quatro vem da produção de natureza imaterial.
O crescimento dessa variedade produtiva possibilitou o aumento dos recursos financeiros no país e no mundo sem, no entanto, melhorar a renda e a participação dos trabalhadores no acumulo do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
"Não basta ter crescimento econômico para que a renda seja melhor distribuída", considerou Pochmann, mesmo que o aumento salarial médio do trabalhador dependa da expansão das atividades produtivas.
Nas duas últimas décadas, a renda total do trabalho passou a contribuir menos no conjunto das riquezas nacionais. Nos países avançados, por exemplo, a renda a partir de mão-de-obra representa até dois terços, ou quatro quintos, do PIB.
No Brasil, onde a renda do trabalhador representa metade da produção, o salário médio cresceu em apenas seis dos 17 anos estudados pelo Ipea. Segunda as previsões do instituto, somente em 2011 o país voltará a alcançar a situação da década de 1990 quando a participação dos salários na riqueza nacional representava 53,4% do PIB – mesmo em meio à recessão econômica sofrida na época.
Integração
Pochmann, da mesma forma como o secretário de Articulação Institucional e Parcerias do Ministério do Desenvolvimento Social, Ronaldo Coutinho, lembrou que a falta de integração dos ministérios governamentais dificulta o sucesso das políticas de combate à pobreza e as desigualdades.
"Não basta o Brasil apresentar todas as políticas públicas que os países ricos também apresentam. Não podemos ter uma produção de indicadores contemplativos da realidade que na maior parte das vezes não estão envolvidos com a aplicação de políticas integradas", defendeu.
As políticas públicas ainda carecem de indicadores e analises que acompanhem a ralação entre crescimento econômico e melhora nos setores educação, saúde e renda. Segundo o economista, o novo capitalismo que se forma a partir da expansão imaterial do trabalho exige a criação de ações mais completas para medir os impactos derivados das mudanças.
O aumento da expectativa de vida para até 110 anos e os ganhos da produtividade (física e material), serão capazes de diminuir o peso do trabalho para somente 5% do tempo total da vida. Por outro lado à necessidade de expandir o conhecimento será constante.
A sociedade pós-industrial exigirá escola para a vida toda e não obrigará o trabalho intenso como conhecemos hoje - as pessoas poderão ingressar no mercado por volta dos 25 anos e não mais aos 15.
"Hoje os filhos dos ricos no Brasil dificilmente ingressam no trabalho antes dos 25 anos de idade. Somente os filhos dos pobres estão condenados a ingressar tão cedo no mercado. E ao ingressar tão cedo não conseguem elevar a escolaridade", explicou.
Atualmente dos 35 milhões de jovens no país, apenas 17 milhões estudam – desse total, cerca de 57% estão fora das séries que deveriam cursar considerando a faixa etária. Parte desse contingente está submetido a atividades de 16 horas diárias de estudo e trabalho, dificultando o processo de aprendizagem e conseqüentemente da concorrência no mercado.
Pochmann defendeu a criação de um fundo público que, entre outras funções sociais, possibilitaria também o desenvolvimento de diagnósticos mais aprofundados sobre as mudanças no país. Esse fundo equivaleria a 60% ou 70% do PIB – na sociedade agrária cerca de 6% do PIB eram gastos com o bem estar social, e atualmente os investimentos estão entre 35% e 40% do PIB.
Atualizado pela última vez por Lilian Milena 19. Dez, 2008.
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